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ANNOUNCEMENT

PROPOSTA DE COLÓQUIO SUL-SUL

A construção Transatlântica das noções de 'raça', cultura negra, negritude e anti-racismo: rumo a um novo diálogo entre pesquisadores na África, América Latina e Caribe

Justificativa
Culturas e Identidades Negras têm sido historicamente criadas e redefinidas através da troca triangular de símbolos e idéias entre a África, o Novo Mundo e a Diáspora Negra na Europa. Também a racialização de relações sociais e de grupos particulares têm se baseado em categorias criadas através de trocas internacionais através do Atlântico. O motor deste intercâmbio foi uma cadeia de eventos desencadeados pela escravização de um grande número de africanos, seguido pelo tráfico, estabelecimento de novas plantation societies de larga escala, do processo de construção da Nação no Novo Mundo, da colonização da África, do movimento anticolonial e da luta pelos direitos civis entre os descendentes de africanos no Novo Mundo e na Europa.
    De um lado, noções como tribo e grupo étnico, que foram criadas no interior da experiência colonial nas Américas, viajaram até a África, informando a construção do Outro sendo depois arremessadas de volta para as Américas. De outro lado, o anti-racismo e o discurso do Nacionalismo Negro desenvolveram-se dentro deste intercâmbio internacional, sendo inspirados também por noções heliocêntricas (Egito-centradas) e difusionistas da história mundial - freqüentemente sustentadas pelo assim chamado princípio hamítico - assim como eles são atualmente influenciados pela teorização sobre políticas de identidade nas ciências sociais. Por exemplo, idéias de negritude, blackness e pan-africanismo, criadas no Novo Mundo têm sido inspiradas tanto por Intelectuais africanos e lutas pela independência quanto por imagens do que as sociedades africanas seriam antes da colonização européia. Diversos sistemas religiosos mantiveram - e recentemente reforçaram - contatos sociais e simbólicos com certo número de centros religiosos na África.
    Este processo de construção de culturas negras tem criado os contornos de uma área cultural transnacional, multilíngüe e trans-religiosa, o Atlântico Negro. É neste contexto que novas culturas negras comodificaram-se - tornaram-se mercadorias - por meio da seleção de certos traços e objetos para representar a cultura negra como um todo, objetificando-a ao fazê-la sólida e material através de dinâmicas que foram atividades tanto "interiores" quanto "exteriores" às populações negras. Convém dizer que mesmo o tipo de 'objetos negros' varia de um contexto local para outro. Freqüentemente estes objetos têm a ver com o corpo, a moda e a gestualidade, seja como marcadores de stigma ou signos de mobilidade e sucesso. Este processo de comodificação transatlântico seguiu-se por séculos, sendo mais uma evidência de que a globalização de idéias raciais assim como do pensamento anti-racista tem sido processos com uma longa história e de que também são pertinentes para povos que, de uma perspectiva eurocêntrica, foram freqüentemente considerados 'sem história'.
    Nesta triangulação transatlântica importantes alterações configuraram, neste longo período de tempo, uma mudança na geopolítica do conhecimento, na hierarquização e racialização, a qual, nos séculos passados, dando e recebendo terminou desenvolvendo-se e movendo-se de uma costa para a outra entre hemisférios, viajando entre diferentes estilos coloniais. A América Latina - Brasil - tornou-se menos importante na construção transatlântica de 'negros' e 'brancos'. Os agentes e centros de produção do pensamento racial sofreram um processo de des-Ibericização, digamos assim. Por exemplo, a categoria 'viajantes' que se criou post facto por volta do século XIXX. Quando outra categoria de observadores sociais de dinâmicas raciais emergiu, os ensaístas, quase nunca se incluía entre estes pessoas da Península Ibérica. No século passado historiadores e antropólogos, principalmente europeus tiveram um papel fundamental, mais recentemente o número de africanos e 'negros' da América Latina envolvidas neste circuito cresceu, alguns deles sendo pesquisadores, outros escritores e/ou ativistas de direitos civis.
    Assim, na medida em que o palco para a discussão transatlântica destes tópicos foi, de um modo em geral, restrito a um número de pesquisadores metropolitanos - a maioria destes antropólogos e historiadores - os quais, freqüentemente tornaram-se parte e parcela eles mesmos dos fluxos e refluxos entre a África, o Novo Mundo e a Europa. Estamos pensando antes de tudo em Melville Herskovits, Pierre Verger, Roger Bastide, que foram muito importantes em inspirar pesquisas ulteriores sobre formação de identidade e produção cultural entre os descendentes de africanos no Novo Mundo. Pensamos que seja central reconstruir através da diversidade das pesquisas mais recentes esta tradição de pesquisa, contextualizando-a sociologicamente, atualizando-a nos termos dos paradigmas científicos atuais e avaliando criticamente suas conseqüências para o posterior desenvolvimento nos fluxos e refluxos através do que agora é chamado de Atlântico Negro. Esta tradição de pesquisa possui aspectos tanto subversivos quanto conservadores. Criou uma curiosidade nova sobre coisa da África no Novo mundo, mas operou através de categorias - como a noção de africanismos - que estavam imbuídas na rationale colonial e racial de sua própria época. O uso de categorias ou sub-variações destas, tais como Guiné, Mina, Sudanês, Mandinga, Nagô, Jeje, Congo, Bantu e Yorubá, mas também Egito e Etiópia, em ambas as margens do Atlântico, e sua significação mutável e posicionada, é um bom exemplo de quão ambíguo e politicamente complexo tornou-se o trabalho acadêmico e de pesquisa ao estabelecer ligações através do Atlântico Negro.
    Analisando a formação de culturas negras pelo atlântico e as conseqüências deste processo para o uso de categorias étnicas e raciais na África ela própria, o colóquio aqui proposto deverá focar-se na criatividade ao invés de procurar traços de possíveis africanismos - a maneira como a África é reinventada por razões políticas mais do que a capacidade de retenção de cultura africana através de séculos de brutalidade. Por esta razão é importante trabalhar em torno da biografia de objetos negros, ícones e idéias - detectando como e porque eles adquirem ou perdem valor. Direção, atores, circuitos e hierarquia destes fluxos refletem a específica e mutável posição da América Latina e da África no Sistema Mundial. É fundamental iluminar-se também as maneiras pelas quais a África em si mesma tem sido afetada pelo seu uso e abuso no Novo Mundo, como um instrumento para classificar e racializar, mas também como ferramenta para empowerment. A história da música popular, da vida cultural juvenil, do consumo conspícuo e da criação de (novas) identidades étnicas nas cidades africanas tem demonstrado que a África não é o profundo continente imóvel da maioria de suas representações no Novo Mundo.

O Colóquio
O objetivo de nosso colóquio é duplo. Primeiro, ele permitirá criticamente o estudo dos fluxos e refluxos e da agenda de pesquisadores centrais em seus respectivos campos de estudo acadêmicos, por exemplo, Herskovits, C. Anta Diopp, Bastide e Verger, assim como acadêmicos mais recentes como, por exemplo, Richrad Price, John Thornton, Paul Gilroy e Lorand Matory. Em segundo lugar desenvolverá uma nova agenda de pesquisa baseada em ligações estabelecidas no intercâmbio sul-sul, definindo um conjunto de pontos chave para a construção transatlântica de projetos conjuntos de pesquisa no âmbito da relação sul-sul. Nesse sentido, o colóquio avaliará as redes já existentes e tentará estabelecer novas redes, ou, melhor dizendo, uma rede de redes.
    O colóquio reunirá pesquisadores baseados na África e na América Latina, especialmente Brasil e Cuba. Eles virão de países com diferentes tradições e linguagens coloniais. O colóquio é interdisciplinar e reunirá historiadores, antropólogos, museólogos e outros pesquisadores seniores e juniores. Seu número variará de 15 a 25 dependendo das fontes de financiamento. Já dispomos de uma generosa doação da fundação SEPHIS. O Governo Federal Brasileiro, a Fundação Ford, a Fundação MacArthur e o Social Sciences Research Council nos EEUU estão sendo consultados para proverem fundos adicionais.
    Um número limitado de importantes acadêmicos baseados no Norte e que desenvolvem importantes redes através do Atlântico serão também convidados, providenciando-se que eles cubram suas próprias despesas.
    O colóquio está previsto para 11-17 de novembro de 2002 em Gorée, Senegal. Os primeiros dois dias serão dedicados à avaliação crítica de pesquisa até o momento; os segundos dois dias serão dedicados ao estabelecimento de uma agenda de pesquisa transatlântica, com foco especial no intercâmbio direto Sul-Sul, uma vez que as maiorias dos projetos de pesquisa transatlânticas tiveram seu eixo em instituições acadêmicas dos Estados Unidos, Canada ou Europa. Maneiras de intensificar as oportunidades para que latino-americanos possam levar a cabo suas pesquisas na África e para que africanos ponham em prática suas pesquisas na América Latina deverão ser exploradas. Os últimos dois dias serão dedicados a excursões, para S. Louis e etc.
    Todos os acadêmicos convidados deverão apresentar um paper original que será distribuído previamente. Cada apresentação destes papers será seguida por comentários de um debatedor. Os papers e comentários serão editados em um volume com diferentes edições em inglês, francês, português e espanhol.
    Os papers deverão ser submetidos segundo as seguintes orientações:
-    O título, acrescentando 5 palavras chave
-    Um resumo de 200 palavras
-    Um paper de no máximo 5000 palavras
-    Numa folha separada, os seguintes dados: nome do autor, endereço postal, número de telefone e fax, e-mail, filiação institucional e status acadêmico.
O prazo final para encaminhamento de resumos é 1o de agosto de 2002 o prazo final para os papers é 1o de outubro de 2002.

Lugar do evento
As sessões acadêmicas do colóquio serão realizadas no Gorée Institute. Esta jovem instituição pan-africana (fundada em 1992) tem experiência considerável em organizar cursos e seminários internacionais. Conseqüentemente é um lugar ideal para discussão de questões concernentes ao colóquio. O instituto é localizado na antiga "Maison du Soudan" na historicamente bem conhecida Ilha de Gorée - distando de Dakar uma curta viajem de barco.
    Gorée possui boas instalações de nível nacional e internacional para o colóquio. Têm uma marca histórica e um passado ao mesmo tempo trágico e glorioso. A importância de Gorée deriva do tráfico de escravos, navios negreiros, indignidade, sofrimento, lágrimas e morte. Sucessivamente controlado pelos portugueses, pelos holandeses, pelos britânicos e pelos franceses, esta pequena ilha de pescadores tornou-se a partir do século XVII o centro de um tráfico triangular entre Europa, África e América. Foi um dos principais pontos de tráfico de escravos para a Guiana, Guadalupe e Martinica. Apesar de uma visita a Gorée ser uma "viagem ao coração da dor e do sofrimento através de vazios e, entretanto, comoventes lugares, a ilha hoje em dia está longe de ser um lugar sinistro. Primeiramente, Gorée assumiu um importante papel simbólico na reconstrução de laços culturais e intelectuais entre a África e as Américas. Em segundo lugar, a ilha é um maravilhoso e tranqüilo sítio, coberto de casas de estilo colonial e pequenas praias. Você ficará mobilizado e encantando pelo estilo que surge destas casas em ocre com balcões de madeira, assim como pelas pequenas ruas de areia que conduzem invariavelmente em direção à praia.

Organizadores
O colóquio é organizado pelo antropólogo Livio Sansone (Centro de Estudos Afro-Asiáticos - Universidade Federal da Bahia), pelo historiador Boubacar Barry (Université Cheikh Anta Diopp, Dakar) e pela historiadora Elisée Soumonni (Université Nationale du Benin, Cotonou). Eles serão assessorados pela Dra. Ndeye Sokhna Gueye ( SEPHIS-CODESRIA Program Coordinator, Dakar).

Pessoa de Contato na América Latina:
Livio Sansone, CEAO/UFBA
Centro de Estudos Afro-Orientais
Universidade Federal da Bahia
Praça XV de Novembro 17, Terreiro de Jesus
40.000 Salvador - Bahia - Brasil
tel.55-71-3215315 fax/phone 3228070 home 3460516
liviosansone@yahoo.com