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African Diaspora Newsletter No.11 - PhD Student
 
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Os Povos da Guiné e o Tráfico de Escravos da
Companhia do Grão-Pará e Maranhão (1755-1777)


Carlos Franco Liberato
   
O presente projeto de doutorado intitulado está vinculado ao Departamento de História da Universidade de York, sediada na cidade de Toronto no Canadá. Esta investigação deriva da minha dissertação de mestrado defendida em 2001 no Centro de Estudos de Ásia e África de El Colegio de México, chamada A Construção Social do Espaço Urbano de Bissau (1765-1846). Naquela oportunidade, tornou-se evidente a importância da presença da Companhia não só para a produção dos espaços sociais locais, mas também como instrumento fundamental para a criação do mundo luso-africano na região.

Como não poderia ser de outra forma, o objeto principal de análise desta pesquisa é o tráfico de escravos praticado pela Companhia entre a região dos Rios da Guiné e Cabo Verde na África e o Estado do Grão-Pará e Maranhão na América Portuguesa. Através do estudo das condições econômicas e sociais dos povos guineenses, o que se busca é o mapeamento dos seus diferentes graus de desenvolvimento agrícola, tecnológico e organizacional, com o objetivo de estabelecer de modo mais preciso as reais contribuições dos povos escravizados para a cultura material das regiões Norte e Nordeste do Brasil.

A documentação primária para a realização da pesquisa encontra-se em grande parte nos arquivo e bibliotecas de Portugal. As cidades de Lisboa e do Porto caracterizam-se pela riqueza do patrimônio documental e bibliográfico das instituições que lá existem.

Apesar da importância da história da Companhia para o desenvolvimento dos estudos sobre a escravidão moderna e o tráfico de escravos, existem poucos estudos publicados sobre o tema, destacando-se a clássica obra de Antonio Carreira, A Companhia Geral do Grão Pará e Maranhão (1988). No entanto, a maioria dos trabalhos existentes não se dedicam com especial interesse sobre o tema do tráfico ou são claramente preconceituosos no que tange a participação dos povos africanos e ameríndios. Quase todos contam apenas o lado europeu da história, desprezando a complexidade das relações euroafricanas que caracterizaram a história regional por quase quatrocentos anos. De igual forma, ainda que o tráfico de escravos tenha sido o principal negócio da Companhia, a maioria dos pesquisadores tem devotado seus esforços em revelar o seu papel político e econômico nos intrincados andaimes administrativos que sustentavam o Império Português. Por outro lado, a Companhia é importante porque ela representa um exemplo histórico concreto e bem documentado de uma empresa pluricontinental que, enquanto lutava para assegurar seu monopólio nas conexões comerciais que uniam Portugal, África e as Américas, criou condições propícias para o desenvolvimento de novas e assimétricas formas de intercâmbio cultural nos seus domínios de ultramar.

A Companhia é um objeto histórico de estudos privilegiado. Durante cerca de vinte anos, ela transportou aproximadamente 18 mil escravos da atual região da Guiné Bissau para o então Estado do Grão Pará e Maranhão, que incluía os Estados brasileiros contemporâneos do Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí, Maranhão e uma grande parte da Amazônia brasileira (os atuais Estados do Amapá, Pará e Amazonas). Em relação às suas atividades, existe uma farta documentação primária que se refere a uma dilatada variedade de temas políticos, administrativos, militares, comerciais e do tráfico de escravos.

No entanto, o material de pesquisa sobre a Companhia não é tão monumental que impossibilite o seu estudo num trabalho de doutorado. Ainda que as fontes mapeiem as atividades transcontinentais portuguesas na segunda metade do século XVIII, elas se restringem basicamente aos pouco mais de vinte anos de existência da Companhia, estando concentradas nos arquivos e bibliotecas mais importantes de Portugal (Arquivo Histórico Ultramarino, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Sociedade de Geografia de Lisboa, Biblioteca da Ajuda e Biblioteca Nacional em Lisboa e a Biblioteca Municipal do Porto) e do Brasil (Biblioteca e Arquivo Nacional, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, no Rio de Janeiro e os arquivos públicos, curiais e privados dos Estados do Pará e Maranhão). Ainda que uma parte significativa deste material tenha sido estudada, é essencial proceder a uma releitura dos documentos, com novos olhos e novas perguntas, pondo de lado as visões eurocêntricas da história para melhor avaliar as reais contribuições dos diferentes povos envolvidos na construção do mundo atlântico. Do mesmo modo, sabedor da precariedade dos arquivos da Guiné-Bissau, fato agravado pelos conflitos de 1998, nutro esperanças de que valiosos documentos repousam nos fundos dos arquivos públicos e privados de Cabo Verde, onde pretendo investigar em oportunidade propícia.
 

Department of History, York University,  Toronto, Canada
Email: nigerian@yorku.ca
Fax: (416) 650-8173